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FMUSP cria comissão para estudar o uso de álcool e drogas na faculdade

Evento debateu o tema com pesquisadores da saúde e ciências sociais. Segundo professor, comissão vai definir programa para lidar com bebida.

A Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) criou uma comissão permanente para discutir o uso de álcool e outras drogas dentro da comunidade de estudantes, funcionários e professores. O presidente da comissão, o psiquiatra e professor Arthur Guerra de Andrade, afirmou nesta quinta-feira (30) que ela está em processo de definição dos membros e já começou um mapeamento dos serviços dentro da faculdade e no Hospital das Clínicas (HC) que já oferecem tratamento e atendimento a usuários.

Andrade foi um dos palestrantes do primeiro evento do fórum Universidade Aberta, promovido pelo Núcleo de Estudos e Ações de Direitos Humanos (NEADH) da FMUSP.

O evento, assim como a criação do núcleo, foram pensados para debater questões relacionadas à violação de direitos humanos na faculdade no fim de 2014, depois que denúncias de estupros, abuso sexual e trotes violentos chegaram à Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp).

O diretor da FMUSP, professor José Octávio Costa Auler Junior, reconheceu que a faculdade tem problemas. "Reconhecemos que temos problemas, problemas que precisam ser debatidos, tratados", disse ele. "Estamos dando espaço para que essas ações tenham pauta nas agendas desta instituição."

Alunos da USP usam mais drogas

Andrade, que coordena o Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria do HC, entre outras entidades acadêmicas da área, apresentou dados sobre uso de álcool e drogas entre mais de 11 mil estudantes da FMUSP colhidos durante três pesquisas, realidades em 1996, 2001 e 2009.

Segundo ele, o levantamento mostrou que estudantes da USP têm hábitos de consumo de drogas mais frequentes do que outros segmentos da população em geral, incluindo estudantes do ensino médio, do ensino básico e do ensino superior.

O consumo, porém, varia. Estudantes de cursos de ciências biológicas, por exemplo, consomem mais bebidas alcoólicas. Já entre os estudantes de cursos de ciências humanas o consumo maior é o de outras drogas.

No caso das faculdades de medicina da USP em São Paulo e em Ribeirão Preto, ele afirma que a pesquisa detectou a intensificação nos hábitos de consumo, conforme o estudante progride na graduação, mesmo passando por disciplinas que ensinam os efeitos do consumo de drogas lícitas e ilícitas no corpo humano.

"Do primeiro ao sexto ano os alunos usam cada vez mais. O fato de terem conhecimento não é um fator protetor para que o aluno da Faculdade de Medicina da USP de São Paulo e de Ribeirão Preto fique longe [do consumo nocivo de substâncias]", explicou ele.

O professor também apontou um aumento no número de ocasiões em que os estudantes praticam o que os pesquisadores chama de "beber pesado episódico", o equivalente ao consumo de cinco doses ou mais de bebida em um período de duas horas (ou quatro doses ou mais, no caso das estudantes mulheres). "[A comissão] tem a missão de apresentar uma política sobre como vamos lidar com isso", explicou Andrade no evento.

Mitos sobre o consumo de drogas

Durante o fórum, outros pesquisadores da área da saúde, do direito, da sociologia e da antropologia também falaram sobre o consumo de drogas, os riscos desse consumo para as pessoas, em especial para os adolescentes, e a abordagem que a universidade deve ter para lidar com isso dentro de seus campi.

O procurador-geral de Justiça do Ministério Público de São Paulo, Márcio Fernando Elias Rosa, afirmou que a questão proibicionista não deve ficar a cargo do Poder Judiciário, mas sim da medicina, que é responsável por indicar os efeitos do consumo de droga.

Maurício Fiore, antropólogo e coordenador científico da Plataforma Brasileira de Política de Drogas (PBPD), e Leon Garcia, um dos diretores da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad), destacaram que as drogas muitas vezes são usadas como "bode expiatório" para crimes como a violência doméstica, o que acaba fazendo com que os verdadeiros efeitos causadores desses crimes acabam sem um combate efetivo.

Cultura de impunidade

Médico formado pela USP na década de 1990, Garcia também alertou para o fato de que, durante sua graduação, episódios envolvendo má conduta e violação de direitos por parte de estudantes, como trote violento dentro do Show Medicina, fraudes e roubos de equipamentos valiosos de pesquisa, acabaram sendo tratados de forma leniente pela instituição.

"Ocorreram fatos graves e a universidade não deu uma resposta. Essa ideia de que as regras não se aplicam ganhou uma certa chancela naquele momento", afirmou ele, explicando que a reversão dessa cultura de impunidade depende de um processo contínuo.

De acordo com Vânia Balera, coordenadora do núcleo, há três outros fóruns semelhantes planejados, mas ainda sem data e programa definidos. Eles tratarão de assédio moral, preconceito e qualidade de vida. "Não é fácil falar sobre temas difíceis", disse ela no encerramento do evento.

Palestrantes e participantes do fórum desta quinta sugeriram, também, que um quarto tema ganhe um dia de discussão: a sexualidade e a violência sexual.